Caros leitores, no dia de hoje adentramos no mês de agosto, conhecido na Igreja por ser o mês vocacional. Como prometido, durante este mês postaremos diversos artigos falando sobre vocação. Hoje, aproveito para partilhar com vocês a Mensagem do Papa Bento para o dia de orações pelas vocações, realizado no dia 29 de abril deste ano, o quarto domingo da Páscoa. Esta mensagem que o papa transmite, é sempre publicada alguns meses antes; precisamente, foi publicada em outubro de 2011, no dia de São Lucas. Aproveitemos esta mensagem de nosso pastor, para revigorar nosso espírito de oração e fortalecer nosso pedido ao Senhor, para que mande mais operário para a messe.
MENSAGEM DO SANTO PADRE
PARA O 49º DIA MUNDIAL
DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES
(29 DE ABRIL DE 2012 - IV DOMINGO DE PÁSCOA)
Tema: As vocações, dom do amor de Deus
Amados irmãos e irmãs!
O XLIX Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado no IV domingo de
Páscoa – 29 de Abril de 2012 –, convida-nos a reflectir sobre o tema «
As
vocações, dom do amor de Deus».
A fonte de todo o dom perfeito é Deus, e Deus é Amor –
Deus caritas est
–; «quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele» (
1 Jo
4, 16).
A Sagrada Escritura narra a história deste vínculo primordial de Deus
com a
humanidade, que antecede a própria criação. Ao escrever aos cristãos da
cidade
de Éfeso, São Paulo eleva um hino de gratidão e louvor ao Pai pela
infinita
benevolência com que predispõe, ao longo dos séculos, o cumprimento do
seu
desígnio universal de salvação, que é um desígnio de amor. No Filho
Jesus, Ele «escolheu-nos – afirma o Apóstolo – antes da fundação do
mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em
caridade na sua presença» (
Ef 1, 4). Fomos amados por Deus, ainda «antes» de começarmos a
existir! Movido exclusivamente pelo seu amor incondicional, «criou-nos do nada»
(cf.
2 Mac 7, 28) para nos conduzir à plena comunhão consigo.
À vista da obra realizada por Deus na sua providência, o salmista exclama
maravilhado: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a Lua e as estrelas que Vós
criastes, que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do
homem para com ele Vos preocupardes?» (
Sal 8, 4-5). Assim, a verdade profunda da nossa existência está
contida neste mistério admirável: cada criatura, e particularmente cada pessoa
humana, é fruto de um pensamento e de um acto de amor de Deus, amor imenso, fiel
e eterno (cf.
Jer 31, 3). É a descoberta deste facto que muda, verdadeira
e profundamente, a nossa vida. Numa conhecida página das
Confissões,
Santo Agostinho exprime, com grande intensidade, a sua descoberta de
Deus,
beleza suprema e supremo amor, um Deus que sempre estivera com ele e ao
qual,
finalmente, abria a mente e o coração para ser transformado: «Tarde Vos
amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis
dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o
meu
espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que
criastes.
Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo
que não
existiria, se não existisse em Vós. Chamastes-me, clamastes e rompestes a
minha
surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira.
Exalastes
sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por
Vós.
Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora
desejo
ardentemente a vossa paz» (
Confissões, X, 27-38). O santo de Hipona procura, através destas
imagens, descrever o mistério inefável do encontro com Deus, com o seu amor que
transforma a existência inteira.
Trata-se de um amor sem reservas que nos precede, sustenta e chama ao longo do
caminho da vida e que tem a sua raiz na gratuidade absoluta de Deus. O meu
antecessor, o Beato João Paulo II, afirmava – referindo-se ao ministério
sacerdotal – que cada «gesto ministerial, enquanto leva a amar e a servir a Igreja, impele a amadurecer
cada vez mais no amor e no serviço a Jesus Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da
Igreja, um amor que se configura sempre como resposta ao amor prévio, livre e
gratuito de Deus em Cristo» (Exort. ap.
Pastores dabo vobis, 25).
De facto, cada vocação específica nasce da iniciativa de Deus,
é
dom do amor de Deus! É Ele que realiza o «primeiro passo», e não o faz por
uma particular bondade que teria vislumbrado em nós, mas em virtude da presença
do seu próprio amor «derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo» (
Rm
5, 5).
Em todo o tempo, na origem do chamamento divino está a iniciativa do amor
infinito de Deus, que se manifesta plenamente em Jesus Cristo. «Com efeito –
como escrevi na minha primeira Encíclica,
Deus caritas est – existe uma múltipla visibilidade de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos
narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos – até à Última Ceia,
até ao Coração trespassado na cruz, até às aparições do Ressuscitado e às
grandes obras pelas quais Ele, através da acção dos Apóstolos, guiou o caminho
da Igreja nascente. Também na sucessiva história da Igreja, o Senhor não esteve
ausente: incessantemente vem ao nosso encontro, através de pessoas nas quais Ele
Se revela; através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia» (n.º 17).
O amor de Deus permanece para sempre; é fiel a si mesmo, à «promessa que jurou manter por mil gerações» (
Sal 105, 8). Por isso é preciso anunciar de novo, especialmente às novas
gerações, a beleza persuasiva deste amor divino, que precede e acompanha: este
amor é a mola secreta, a causa que não falha, mesmo nas circunstâncias mais
difíceis.
Amados irmãos e irmãs, é a este amor que devemos abrir a nossa vida; cada dia,
Jesus Cristo chama-nos à perfeição do amor do Pai (cf.
Mt 5, 48). Na
realidade, a medida alta da vida cristã consiste em amar «como» Deus; trata-se
de um amor que, no dom total de si, se manifesta fiel e fecundo. À prioresa do
mosteiro de Segóvia, que fizera saber a São João da Cruz a pena que sentia pela
dramática situação de suspensão em que ele então se encontrava, este santo
responde convidando-a a agir como Deus: «A única coisa que deve pensar é que
tudo é predisposto por Deus; e onde não há amor, semeie amor e recolherá amor» (
Epistolário,
26).
Neste terreno de um coração em oblação, na abertura ao amor de Deus e como fruto
deste amor, nascem e crescem todas as vocações. E é bebendo nesta fonte durante
a oração, através duma familiaridade assídua com a Palavra e os Sacramentos,
nomeadamente a Eucaristia, que é possível viver o amor ao próximo, em cujo rosto
se aprende a vislumbrar o de Cristo Senhor (cf.
Mt 25, 31-46). Para
exprimir a ligação indivisível entre estes «dois amores» – o amor a Deus e o
amor ao próximo – que brotam da mesma fonte divina e para ela se orientam, o
Papa São Gregório Magno usa o exemplo da plantinha: «No terreno do nosso
coração, [Deus] plantou primeiro a raiz do amor a Ele e depois, como ramagem,
desenvolveu-se o amor fraterno» (
Moralia in Job, VII, 24, 28:
PL 75, 780D).
Estas duas expressões do único amor divino devem ser vividas, com particular
vigor e pureza de coração, por aqueles que decidiram empreender um caminho de
discernimento vocacional em ordem ao ministério sacerdotal e à vida consagrada;
aquelas constituem o seu elemento qualificante. De facto, o amor a Deus, do qual
os presbíteros e os religiosos se tornam imagens visíveis – embora sempre
imperfeitas –, é a causa da resposta à vocação de especial consagração ao Senhor
através da ordenação presbiteral ou da profissão dos conselhos evangélicos. O
vigor da resposta de São Pedro ao divino Mestre – «Tu sabes que Te amo» (
Jo
21, 15) – é o segredo duma existência doada e vivida em plenitude e, por isso,
repleta de profunda alegria.
A outra expressão concreta do amor – o amor ao próximo, sobretudo às pessoas
mais necessitadas e atribuladas – é o impulso decisivo que faz do sacerdote e da
pessoa consagrada um gerador de comunhão entre as pessoas e um semeador de
esperança. A relação dos consagrados, especialmente do sacerdote, com a
comunidade cristã é vital e torna-se parte fundamental também do seu horizonte
afectivo. A este propósito, o Santo Cura d’Ars gostava de repetir: «O padre não
é padre para si mesmo; é-o para vós» [
Le curé d’Ars. Sa pensée – Son cœur ( ed. Foi Vivante - 1966), p. 100].
Venerados Irmãos no episcopado, amados presbíteros, diáconos, consagrados e
consagradas, catequistas, agentes pastorais e todos vós que estais empenhados no campo da
educação das novas gerações, exorto-vos, com viva solicitude, a uma escuta
atenta de quantos, no âmbito das comunidades paroquiais, associações e
movimentos, sentem manifestar-se os sinais duma vocação para o sacerdócio ou
para uma especial consagração. É importante que se criem, na Igreja, as
condições favoráveis para poderem desabrochar muitos «sins», respostas generosas
ao amoroso chamamento de Deus.
É tarefa da pastoral vocacional oferecer os pontos de orientação para um percurso
frutuoso. Elemento central há-de ser o amor à Palavra de Deus, cultivando uma
familiaridade crescente com a Sagrada Escritura e uma oração pessoal e
comunitária devota e constante, para ser capaz de escutar o chamamento divino no
meio de tantas vozes que inundam a vida diária. Mas o «centro vital» de todo o
caminho vocacional seja sobretudo a Eucaristia: é aqui no sacrifício de Cristo,
expressão perfeita de amor, que o amor de Deus nos toca; e é aqui que aprendemos
incessantemente a viver a «medida alta» do amor de Deus. Palavra, oração e
Eucaristia constituem o tesouro precioso para se compreender a beleza duma vida
totalmente gasta pelo Reino.
Desejo que as Igrejas locais, nas suas várias componentes, se tornem «lugar» de
vigilante discernimento e de verificação vocacional profunda, oferecendo aos
jovens e às jovens um acompanhamento espiritual sábio e vigoroso. Deste modo, a
própria comunidade cristã torna-se manifestação do amor de Deus, que guarda em
si mesma cada vocação. Tal dinâmica, que corresponde às exigências do mandamento
novo de Jesus, pode encontrar uma expressiva e singular realização nas famílias
cristãs, cujo amor é expressão do amor de Cristo, que Se entregou a Si mesmo
pela sua Igreja (cf.
Ef 5, 25). Nas famílias, «comunidades de vida e de
amor» (
Gaudium et spes,
48), as novas gerações podem fazer uma
experiência maravilhosa do amor de oblação. De facto, as famílias são
não apenas
o lugar privilegiado da formação humana e cristã, mas podem constituir
também «o primeiro e o melhor seminário da vocação à vida consagrada
pelo Reino de Deus» (Exort. ap.
Familiaris consortio,
53), fazendo descobrir, mesmo no âmbito da família, a beleza e a importância do
sacerdócio e da vida consagrada. Que os Pastores e todos os fiéis leigos
colaborem entre si para que, na Igreja, se multipliquem estas «casas e escolas
de comunhão» a exemplo da Sagrada Família de Nazaré, reflexo harmonioso na terra
da vida da Santíssima Trindade.
Com estes votos, concedo de todo o coração a Bênção Apostólica a vós, veneráveis
Irmãos no episcopado, aos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos, às
religiosas e a todos os fiéis leigos, especialmente aos jovens e às jovens que,
de coração dócil, se põem à escuta da voz de Deus, prontos a acolhê-la com uma
adesão generosa e fiel.
Vaticano, 18 de Outubro de 2011.
PAPA BENTO XVI